909 Noites Insones

Julho 7, 2009

Minha Vitrolinha: Beco do Mota

Arquivado em: Minha Vitrolinha — Norma Spagnuolo @ 5:04 pm

vvitOntem o dia foi tumultuado e não deu pra tocar um som na vitrolinha, mas hoje é um novo dia e  estou quase zen. Por isso vou  tocar Milton Nascimento. Mais precisamente, o Milton dos anos 60/70, quando fazia também discos com o “Clube da Esquina” e acompanhado do ” Som Imaginário”.
A  música de hoje é do disco MILTON NASCIMENTO, de 1968.
Nessa fase, a voz do Milton era imbatível e a sonoridade da rapaziada que o acompanhava era sensacional. Quando vou à Minas, levo no mp3 player o som dele dessa época porque acho que traduz musicalmente o clima mineiro (pelo menos, como percebo Minas).
Ah, sim: além dessa, que se chama “Beco do Mota”, ele tem outras tantas maravilhosas, mas procure ouvir a instrumental “Lilia”, que ele compôs para a sua  mãe adotiva  e “Que Bom Amigo”. São de arrepiar lascas de ossos.
Em “Lilia”, ele solfeja o tempo todo. Música forte pacas. Acho que deve ser assim que ele vê sua mãe.
Em “Que Bom amigo” a harmonia é hipnotizante e aderente aos ouvidos.
Escolhi o “Beco do Mota” porque gosto de canções que crescem aos poucos e esta começa com um coro religioso, típico da história de Minas, suas igrejas, canto Gregoriano e tal. Mas a idéia da música, era fazer uma referência à passeata dos cem mil quando o pároco da igreja da Candelária, no Rio, abrigou o tanto de pessoas que deu, para protegê-los de levar porrada do exército.  Muitos religiosos abrigaram pessoas perseguidas pela ditadura naquela triste época.
A passeata dos cem mil, Junho de 1968 (o chamado “ano que não terminou” ), foi motivada pelo assassinato, pela pela repressão, do estudante Edson Luis, que protestava pelo aumento de preço do bandeijão do restaurante Calabouço,do Instituto Cooperativo de Ensino, no Rio de Janeiro.

Quer mais detalhes ?  http://www.esquerda.net/index.php?option=com_content&task=view&id=6807&Itemid=64

O “Beco do Mota” é o Brasil , como diz Milton na letra. Tava todo mundo encurralado “na noite deste meu país”. 
Foi uma noite longa e muito escura mesmo. Ainda bem que eu só tinha 4 anos.

Vamos à letra da canção

Beco do Mota
Milton Nascimento / Fernando Brant.

Clareira na noite, na noite
Procissão deserta, deserta
Nas portas da arquidiocese desse meu país
Procissão deserta, deserta
Homens e mulheres na noite
Homens e mulheres na noite desse meu país

Nessa praça não me esqueço
e onde era o novo fez-se o velho colonial vazio.
Nessas tardes não me esqueço
e onde era o vivo fez-se o morto. Aviso pedra fria

Acabaram com o beco, mas ninguém lá vai morar
Cheio de lembranças vem o povo, do fundo escuro beco,
nessa clara praça se dissolver

Pedra, padre, ponte, muro
e um som cortando a noite escura colonial, vazia.
Pelas sombras da cidade,
hino de estranha romaria
Lamento água viva

Acabaram com o beco…

Procissão deserta, deserta
Homens e mulheres na noite
Homens e mulheres na noite desse meu país
Na porta do beco estamos
Procissão deserta, deserta
Nas portas da arquidiocese desse meu país

Diamantina é o Beco do Mota
Minas é o Beco do Mota
Brasil é o Beco do Mota
Viva meu país.

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