909 Noites Insones

Julho 5, 2009

Que Eleanor!? Que Rigby!?

Arquivado em: Papinho — Norma Spagnuolo @ 3:06 pm

De manhã cedo, minha mãe fica lendo o jornal e  mais tarde, ainda quer assistir a versão televisiva da mesmas notícias. Depois,  fica toda impressionada e, não satisfeita em poluir sua cabeça com notícias de “mata e esfola” , ainda vem me dizer assim com ar de resignação: — Éééé…pra morrer basta estar vivo
Normalmente eu, que diferente dela sou espírita,  respondo invariavelmente: — Aaaahhh…pra ser morto-vivo é que basta estar vivo. Isso é pior.  Falo isso porque vejo, escuto, leio e fico sabendo de casos próximos e distantes de pessoas que tiveram ou estão com um flagelo humano atual que se chama depressão. Caramba, parece epidemia !! pior do que o surto da tal gripe H1N1. Eu tive essa porcaria de doença ( depressão, não H1N1 )  e posso afirmar que não voltarei mais a ter tal coisa. Quando saí dela, após três longos anos, sem tomar remédio,  já saí sabendo que não voltaria mais  a tê-la porque tinha esgotado toda as possibilidades de  desenvolver um câncer e /ou loucura que mata, que morre ou “de dar com pau.”  Também não ia (nem vai) voltar porque conheço as artimanhas mentais sorrateiras , sintomas rasteiros dela ir-se chegando. Fiquei esperta.
Tristeza é outra coisa. Não é bom sentir, mas não coloca uma parede no seu horizonte. Estar deprimida (o), é morrer sem deitar.
Mas por que estou dizendo essas coisas mesmo? ah sim, por causa do jornal da mãe.
Sou espírita, mas não lembro quando foi a última vez que morri de ser enterrada; porém, tenho a impressão de que esta morte morrida, matada  e enterrada é melhor do que aquela morte enrustida, quando as pessoas pensam que você está viva (o)  fazendo fita ou fazendo-se de pobre coitada (o). É barra pesadíssima. É como ir no reino de Hades, o submundo, e voltar sem ninguém querer nem saber como foi a viagem. Uma solidão ancestral. Uma dor milenar, silenciosa e cheia de culpa. 
Ontem de noite, fiquei triste. Não deprê. Apenas triste. Me senti uma Eleanor Rigby que a qualquer momento poderia ir pegar uma meia na gaveta para costurar sem ter a companhia de ninguém. Uma mulher sozinha que iria jogar arroz num feliz casalzinho recém-casado saindo da igreja, felizes e sorridentes. Imaginei a música toda*. Imaginei eu lá de meias remendadas, ombrinhos curvados…
Bom, mas depois de curtir meu momento Eleanor, meu instinto de sobrevivência (ou meu anjo da guarda) veio e falou na minha cabeça: — deixa de palhaçada, Norma. Vinícius de Moraes falou que ele não andava só. Que só andava em boa companhia com seu violão, sua canção e a poesia. Espelhe-se nele que, além de tudo, é brasileiro que nem você. Sem ilha cinza e fria.
É mesmo
- pensei - nada a ver esse papo de Eleanor Rigby. Eu, hein…!
Peguei meu violão e fui espantar a uruca mental (ou, como dizemos, nós espíritas: afastar a auto-obsessão).
E quando minha mãe vier falar: — Ééé…pra morrer basta  estar vivo.
Vou responder: — Mãe, que tal você ir dar uma volta e pegar um solzinho ao redor? E não precisa ir pela sombra, tá?

 *Eleanor Rigby -   música do Paul McCartney, cantada pelos Beatles e que fala sobre todas as pessoas solitárias, na pessoa de Eleanor Rigby.

2 Comentários »

  1. Norminha (que não é a que “não vale nada, mas eu gosto de você”!), adorei seu post. Talvez porque todo mundo tenha seus momentos de ‘remendar meias’, eu também. Ou talvez porque eu adoro a música ‘beatleana’. A verdade é que quando apertam os maus sentimentos prefiro ouvir ‘Get Back’, deles. E dizer, sarcasticamente, à solidão, se for ela a chegar: “no baby, volte para o lugar de onde veio”.

    Lembranças a sua mãe.

    Abraço.
    Isolda.

    Comentário por Isolda — Julho 6, 2009 @ 4:20 pm | Responder

  2. Olá Isolda, vc tem razão. Quando aquela tristeza “urucubenta” e sem sentido chegar, é só mandá-la de volta para o lugar de onde ela veio.
    beijo
    Norma :-)

    Comentário por Norma Spagnuolo — Julho 6, 2009 @ 6:53 pm | Responder


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