Na madrugada do dia 11 de setembro passei por uma experiência intrigante e inesquecível. Depois de pensar um pouco sobre o assunto e refazer-me minimamente do susto, resolvi postar aqui tal experiência porque , nestes tempos estranhos, pode ser que seja útil para alguém.
Eram por volta das três e meia da manhã e eu estava acordada no meu quarto lendo um livro, confortavelmente deitada na minha cama. Ouvi um barulhinho e meu cachorro, que estava deitado ao pé da cama, não se manifestou. Pensei que pudesse ser minha mãe indo ao banheiro. Continuei lendo mais um pouquinho de nada e ouvi de novo o barulhinho que, não vinha do corredor, mas desta vez vinha da sala. Achei que o barulhinho era mais estranho e resolvi levantar. A sala estava com a luz apagada e meu quarto com luz de abajur. Quando eu estava quase chegando na sala, ouvi um barulho bem mais forte, um som seco, tipo um pulo e pensei que minha mãe devia ter caído no escuro da sala, pois é uma senhora. Quando olho para a estante, vi um vulto atrás dela, tentando se esconder e me assustei, é obvio, mas não gritei. Acho que meu olhos abriram, fazendo aquele olho de susto, sabe como é? tentando ver direito o que está acontecendo.
Como eu estava lendo um livro espírita, ocorreu-me rapidamente pela cabeça que eu poderia estar vendo um espírito, mas ao mesmo tempo pensei que nunca fui medium vidente ! e que espírito sólido era aquele, negro, de quase 1.70 de altura. Chamei pela minha mãe, mas não um grito…parecia algo à meia-voz, e o “espírito” se assustou e pensei: — ué..espírito se assusta com a gente chamando a mãe? (todos esses pensamentos e atitudes, foram muito rápidos). Então, ainda pensando, eu achei que era melhor perguntar o nome e saber o que estava fazendo ali. Fiquei sem resposta. Enquanto perguntava, percebi que não era espírito nenhum e sim era um sujeito de carne e osso mesmo, na minha sala. Aí, falei para ele: — Calma. Não fique nervoso. Não vou gritar, não vou te agredir, não tenho arma…vc me permite que eu acenda a luz? ( ele estava muito perto do interruptor de luz). Só quero acender a luz e conversar com você.
A pessoa disse que sim, “pode acender”
Andei normalmente até o interruptor e acendi a luz, sempre olhando para a “figura”.
Estava me sentindo calma e pensava que eu tinha que acalmar aquela pessoa também.
Então, vi que tratava-se de um rapaz, negro, magrinho, de mais ou menos 1:67 / 68 de altura e não aparentava ter mais de 21 anos. Sem calçados, sem camisa e sem banho.
Eu disse-lhe que ele tinha corrido um sério risco de levar um tiro se na minha casa morasse um homem que tivesse arma e também que meu cachorro poderia tê-lo mordido. Nesse momento, lembrei de meu cachorro no quarto e falei a ele que eu ia fechar a porta do meu quarto para que isso não acontecesse. Da porta de meu quarto para onde o estávamos, eu podia vê-lo, o rapaz.
Então, não sei bem o porquê, me ocorreu de perguntar se ele estava com fome, se queria comer. Ele respondeu que sim e eu disse para ir-mos à cozinha onde eu esquentaria uma janta pra ele e enquanto esquentava, nós poderíamos conversar.
Eu dei a ele um banquinho perto da porta da cozinha, que dava para a área de serviço da minha casa e então, fiz-lhe o máximo de perguntas que me ocorriam fazer. Ele, por sua vez, me disse interrompendo-me por um instante, que estava fazendo aquilo por causa do “crack” e puxou do bolso de sua bermuda comprida preta, meu relógio e umas moedas que ele havia pego na minha gaveta. Eu havia averiguado antes a bagunça que ele tinha feito na gaveta e mesa da sala e vi meus cartões de crédito e documentos espalhados e minha carteira jogada aberta no sofá. Não dei falta de nada. Então, servi o jantar e perguntei se ele queria água. Ele disse que sim, e dei-lhe água. Ele me respondia às perguntas: onde morava (mora na rua), como foi viver na rua, falou de sua famíla, disse-me sua idade e nome (19 anos / Carlinhos) e me contou como havia chegado aqui em casa; de que maneira e por onde entrou. Eu perguntei se ele tinha um lugar onde pudesse tomar um banho e se ele tinha uma camisa e uma calça comprida e ele disse que sim. Perguntei essas coisas para tentar ver se ele se interessaria em encontrar comigo em frente à Sociedade Espírita Ramatis, onde existe um trabalho social sério, com muitas instituições sendo ajudadas por aquela casa, além de grupos de distribuição cestas básicas e dão de sopa aos Domingos e tal. Perguntei a ele se ele iria ao local e ele disse que sim, que sabe onde fica. Pensei em falar com alguém da direção para sugerir uma solução para ele sair daquela vida.
Assim, depois dele jantar e falar, eu disse a ele que abriria o portão da frente, que fica trancado (moro em casa) e na calaçada, ele apontou o lugar por onde entrou, quantas casas pulou, etc…
Por fim, depois que ele me mostrou por onde havia entrado, eu disse para ele ir com Deus. Ele foi embora.
Ao chegar dentro de casa, soltei meu cachorro e fui acordar minha mãe, pois me só então me ocorreu saber se ela estava bem e me senti culpada por não ter-me ocorrido isso antes. Eu a acordei devagarzinho e, graças a Deus, ela estava bem.
Aos pouquinhos e com calma contei a ela o que se passara.
Então, ao acabar, lembrei-me do meu celular e do meu maço de cigarros, pois me deu vontade de fumar. Liguei para o celular e atenderam e desligaram e pensei que o rapaz não me devolveu tudo e concluí que ele não vai encontrar-se comigo na Sociedade Espírita Ramatis. Ele levou para trocar por crack, pensei.
Liguei para a operadora do celular e bloqueei a linha.
Agora, terei mais que 909 noites insones e pela primeira vez achei bom eu ter tendência a ser notívaga.
Fiquei e estou profundamente agradecida a Deus por ter-se passado tudo com calma, sem gritos, agressões, nem qualquer consequência grave.
Se meu cachorro tivesse acordado, ele teria mordido o rapaz que, provavelmente gritaria e agrediria meu cachorro e eu ficaria nervosa e minha mãe, que sofreu um infarto no ano passado, poderia acordar e ter outro e tudo teria sido um caos.
A insegurança das cidades, normalmente faz-se notar mais frequentemente nas ruas e não em invasões de domicílio, mas caso aconteça com você ou alguém que você conhece o que aconteceu comigo, peço que considere a idéia de não ter reações agressivas, nervosas…nada de pânico que possa assustar o invasor.
O rapaz que invadiu minha casa, encontrou uma porta aberta ( a da minha cozinha que dá para a área de serviço, onde ninguém sabia que ficava aberta, pois não dá ângulo de visão para nenhum ponto da rua, e eu deixava aberta para meu cachorro ir fazer suas necessidades à noite, caso desse vontade). Não deixo mais.
O rapaz não estava armado e nem foi agressivo em momento algum. Ele ficava de cabeça baixa ouvindo o que eu dizia a ele.
Não sei como teria sido se fosse um homem de má índole, mas mesmo assim, acredito firmemente que tratar as pessoas com dignidade e compaixão, quebra um elo da corrente da violência. Desarma-se um possível algoz. Cada pessoa deve ter a noção do que fazer no momento em que uma situação desse tipo se apresenta, mas tente não ser precipitado e isso já será de grande ajuda.
Sei que é um atrevimento alguém invadir nossa casa, mas isso é uma questão de segurança pública. Posso apenas votar consciente e esperar que o político a quem dei meu voto de confiança, cumpra seu dever de manter a cidade em ordem. Tem um mundo de gente morando na rua. A quem interessa isso?
Abraços em todos.
Norma