Conversa no telefone, eu e minha amiga Márcia:
— Alô
— Oi Norma, tudo bem?
— Oi Márcia. Tudo e vc?
— Beleza… Se anima a ir tomar um vinhozinho ? Tô saindo do trabalho agora e dou uma passadinha aí se vc se animar.
— Mas Márcia, eu não bebo ! serve um jantarzinho? ainda não jantei.
— Tá.
No carro, minha amiga vira pra mim e diz:
— Norma, nesses tempos de lei-seca, uma amiga como você, que não bebe, está super cotada! sempre vai levar a galera! hahahaha
Eu sorri e depois fiquei pensando cá com meus botões que ela estava brincando, mas até que eu poderia mesmo colocar um adesivão com um logotipo bem humorado fixado na porta do meu modesto George (meu carango) e escrito embaixo deste logotipo estaria escrito: “BEBUM DELIVERY”.
Também poderia ser algo como “BEBUM À PORTER” - entrego seu cônjuge bêbado, mas com muita classe ou ainda :seu bebum ileso ou seu dinheiro de volta.
Eu poderia também trocar meu modesto George, um Gol, por uma Fiorino, pois daria para colocar o bebum numa maca suspensa e um balde do lado para o caso dele ver tudo rodando e passar mal com o movimento. Sim, pois bêbado delivery com banho tomado já seria pedir demais ( a menos que eu jogasse o ébrio no mar e o colocasse de volta na caçamba da Fiorino , mas isso não ia dar certo. Seria trabalhoso, perigoso e caro…vá que o sujeito cismasse de “tomar a saideira” ou algo do gênero? ).
Com o tempo, eu contrataria uns ajudantes e compraria mais uns utilitários e poderia definir que cada utilitário pertenceria a cada tipo de bebum. Por exemplo: para cliente bebedor de vodca e gim, eu teria um dispositivo anti-treme-treme porque ôôôh bebidinhas para fazerem a alma desencaixar toda do corpo, viu ? parece que todos os parafusos do corpo se soltaram de uma vez e a gente fica frouxa na vida, vendo o mundo rodar na vertical. Para esta qualidade de bebum, seria preciso uma maca camisa-de-força para fixar o cliente na maca de maneira que ele consiga não tremer ( tremer “à moda pileque russo” provoca as reações escatológicas mais diversas e que não convém detalhar aqui neste espaço pobre, mas limpinho).
Para o bebedor de cerveja, bastaria uma maca de gel geladinha e molinha porque esse tipo sua que é um horror, mas em compensação, basta dar uma barrinha de chocolate e uma Coca-Cola geladinha de 600 ml e pronto: novinho em folha para dormir até o galo cantar. Já o bebedor de Whisky, seria mais complicado porque esse tipo de bebum costuma ser forte feito um touro mecânico e, geralmente, é inchado feito um dirigível. Logo, teria que ter uma maca de campanha tamanho king-size, com encosto levantado para a cabeça não rolar pro lado e o endereço da funerária colado na parede, já que esse tipo quando passa mal é quase pra bater as botas. Mas teria TV para ele assistir ou, se preferisse, um CD para ele escutar uma vez que todo bêbado de whisky fala pelos cotovelos e é hiperativo, calando-se só quando morreu ou dormiu de repente ( a famoso “apagão escocês”).
Para aquele que bebe whisky falsificado, a solução seria solicitar uma ambulância do SUS mesmo porque os riscos dele ter um “apagão paraguaio” e não voltar mais é grande e eu não ia querer segurar esta batata quente.
Enfim, já estava eu fazendo planos para minha empresa delivery de bêbados quando lembrei da possibilidade do “calote”…o bebum liga pra empresa quando tá sóbrio e marca uma hora para a equipe ir lá rebocá-lo do boteco, restaurante, boates & similares. Então, chega a equipe lá na hora combinada e o bêbado já pegou uma carona ou esqueceu o que marcou e arruma briga com a gente, dizendo que estamos lá para sequestrá-lo ou que somos parte de um plano maquiavélico da ex-mulher dele, de quem está se divorciando, para vigiá-lo com o objetivo dela pedir a guarda definitiva dos filhos e tal…ou ainda, ele poderia ser do tipo que bebe e fica paranóico, achando que o pessoal da equipe são ETs disfarçados que estão ali para abduzí-lo para Saturno. Como convencê-lo do contrário?
Mas eu tenho achado muito legal essa lei seca por causa da queda vertiginosa que houve no número de emergências noturnas nos hospitais, o que tem possibilitado a realização de operações agendadas para quem estava realmente precisando por questões de doença mesmo e não de imprudência. Também diminuiu o número de processos em varas criminais.
Houve redução de 57% no número de mortes no trânsito em relação a 2007. (fonte: jornal O Dia)
Enfim, aonde prevalece a vida, eu apóio. E se um dia eu resolver beber um choppinho para relembrar os velhos tempos em que eu curtia “encher o pote”, chamo o táxi. Sem problemas.


