909 Noites Insones

Maio 16, 2008

Síndrome do Pânico Cívica

Arquivado em: Sem categoria — Norma Spagnuolo @ 6:38 pm

O que aconteceu em São Paulo – e num “tiquinho” do Rio –  no mês passado, foi só um leve “treme-treme” se comparado com o terremoto com T maiúsculo que sacudiu a China nos últimos dias.
Mianmar já conta 77.000 mortos por causa de um ciclone. No Chile, o vulcão Llaima que nunca entrou em erupção, resolveu entrar e depois de um dia de sossego, começou a soltar suas fumaças de novo.
No Brasil, quase sempre “deitado em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céus profundo”, costumávamos fazer uma piada dizendo que aqui não tinha ciclones, tufões nem terremotos. Mas em compensação, nossos políticos….
Parece que alguma coisa está mudando ou então, estou sofrendo de alguma espécie de “síndrome do pânico cívico”. Sobre os políticos, nada mudou: continuam em sua maioria, um bando de larápios que a cada prova que se descobre sobre suas falcatruas e desmandos, eles alegam que é armação política para desmoralizá-los. Quase posso recitar as palavras dos argumentos muito pouco criativos.
Só que além da malta política que toma o país de assalto, geração após geração, agora vemos algumas praias desaparecendo lentamente como Macaé, por exemplo (RJ). Tem treme-treme em SP e há um tempo atrás, no Ceará também.
Nesta semana, a Marina Silva têve que deixar o Ministério do Meio-Ambiente. Imagino o terremoto que ela estava provocando nas ambições financeiras daqueles comprometidos com lobbistas das madereiras, agro-negócios e similares. Esse povo, elite de rapina, está acostumado e viciado desde o descobrimento, a ganhar fácil, subtraindo do Brasil e do Povo brasileiro o direito de preservar e dividir com justiça a terra, explorar com bom senso seus recursos hídricos e um mundo de outras coisas. É só chegar lá nos confins do nada, cercar e dizer que é seu. Depois corta a árvore, vende e coloca boi e diz que a terra é produtiva. Só que a produção é vendida pro mercado externo. Se isso não é roubo não sei o que é.
Desviam o curso dos rios, pegam dinheiro com o Governo Federal para construir açudes – que depois verifica-se, quando muito, serem apenas dois poços artesianos e o açude mesmo vai pras terras de Governadores e seus aceclas, que passam a ter um negócio de carros-pipas.
Imagino a Marina Silva, lá no meio da sordidez. Trata-se de uma mulher de bom vontade e que estuda e não que ganha dinheiro com condinomes tipo: “mulher-açaí”, “mulher-cacau” e algo do gênero. Se ela fosse a ”mulher-moto-serra”, talvez ela tivesse apoio dos Ministros, lobbistas e sinhôzinhos da Agricultura e da Madeira… 
Não acho o Governo Lula bonzinho. Não acho que o do Fernando Henrique tenha sido também. E nem um outro. E se cada um deles fez algo de bom para o país e o povo brasileiro, não fez mais do que a obrigação de um eleito. Parece-me que ser um bom dirigente de qualquer coisa, é obrigação e não virtude. Só que observo que entra ano e saí ano, entra década e sái década, sempre tem fome, escassez de água no sertão, invasão de terras indígenas, assassinatos de pessoas que querem justiça no campo sem punição decente para os assassinos (veja o caso do mandante do assassinato da  Dorothy Slang) e perpetuação da ignorância e da falta de instrução.
E só pegam os peixinhos, paus-mandados, que são mais dignos de compaixão do que de raiva.
E daqui a alguns anos ? ( aí é que vem a minha “síndrome do pânico cívica” ). As futuras gerações verão a natureza se rebelar por aqui, com escassez, esgotamento e abalo da terra, chuvas ácidas e sabe lá o que mais. Maremoto, terremoto, tsunami…será ?
Por que a saída de Marina Silva do cargo de Ministra e sua causa (que é nossa causa), não tiveram tanta repercussão como o “caso Isabella” ? Também me comoveu aquele crime medonho contra a menininha, mas a cada dois dias, em média, cinco crianças de até 14 anos morrem vítima de agressão. (dados do Ministério da Saúde – 06/04/2008).
Sem água e sem a floresta Amazônica, o Brasil e o mundo ficará um lugar tão medonho de morar e criar filhos (ainda que a justiça seja perfeita), quanto o ambiente do filme Blade Runner !
Um dia, a natureza não agüenta e se rebela. Menos nós, povo brasileiro, que não nos unimos na desgraça porque, culturalmente, estamos condicionados pelo ditado popular “farinha é pouca, meu pirão primeiro”, como se fôssemos levar dentro dos nossos caixões mais terra do que cabe em cima deles.

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